magine uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo: congestionamentos e buzinas incessantes provocados por 1.500 motos e 4 mil veículos que circulam, por hora, em direção aos apartamentos de alto padrão ou aos centros comerciais. Agora lembre das histórias que sua avó – que provavelmente nasceu em casa – contava sobre uma época em que não havia tantos avanços tecnológicos e medicinais, muito menos a opção de marcar hora para ter filho. Juntando as duas realidades dá para ter uma idéia da vida de Vilma Nishi, uma parteira urbana. Em seis anos, ela ajudou a trazer 150 crianças ao mundo no sossego do lar. Nesse tempo, se acostumou a ser chamada de irresponsável e reza para o santo do trânsito toda vez que sai de casa. Como no mês passado, quando auxiliou o parto de uma produtora em seu apartamento em meio ao caos da avenida Rebouças.
Vilma está entre os sete parteiros conhecidos que atendem em domicílio na capital paulista – número que deve crescer até o fim do ano, quando a primeira turma de parteiros profissionais se forma pela USP Leste. Hoje, os registros de partos em casa no Estado de São Paulo ainda não atingem nem 0,5% do total de nascimentos. Mas a procura pelo trabalho de Vilma aumentou mais de dez vezes em cinco anos. O mesmo aconteceu com suas colegas Heloisa Lessa, do Rio de Janeiro, e Suely Carvalho, de Recife, que atendiam cinco gestantes por ano na década de 90 e hoje auxiliam a mesma quantidade por mês. Suas clientes são advogadas, empresárias, escritoras e antropólogas que pagam entre R$ 2 mil e R$ 8 mil para parir dentro do próprio quarto, sem direito a anestesia, bisturi e infecção hospitalar.
Segundo a Agência Nacional de Saúde, são as infecções a terceira maior causa de morte de recém-nascidos (a primeira são problemas respiratórios e circulatórios, e a segunda, prematuridade e baixo peso), mais freqüentes em cesariana. Este, aliás é o método usado em 43% dos partos do Brasil, 80% só na rede privada, sendo 15% o máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Uma pesquisa divulgada pela Global Survey, com o respaldo da OMS, mostra que, num parto cirúrgico, a mãe corre três vezes mais risco de hemorragias e tem 20 vezes mais chances de ir para a UTI. Além disso, o parto antecipado (maioria das cesarianas) aumenta em até 120 vezes os riscos de problemas respiratórios nos bebês. Por tudo isso, e pelo prazer que certas gestantes sentem ao passar sem anestesia por aquilo que é conhecido como a maior de todas as dores, cada vez mais mulheres abrem mão de infra-estrutura e médicos de plantão para serem protagonistas do próprio parto.
O novo à moda antiga
Mas, para ganhar a confiança das clientes, as profissionais urbanas têm que mostrar diploma – curso de enfermagem, mestrado, doutorado, congressos internacionais. O currículo também inclui acompanhar o trabalho das parteiras tradicionais que vivem como no tempo das nossas avós, em regiões isoladas do Brasil. Das 60 mil parteiras do país, segundo o Ministério da Saúde, 45 mil estão no Norte e Nordeste. São mulheres como Francisca de Oliveira, que é responsável por todos os nascimentos da comunidade Serra Baixa, que tem 380 habitantes e fica no Amazonas. Ela não recebe um tostão pelo ofício, mas chama de vocação a habilidade herdada das antigas gerações. Para a parteira carioca Heloisa Lessa, o contato com a sabedoria popular dessas senhoras é um privilégio para as profissionais da cidade grande. “Unimos os conhecimentos que o ser humano adquiriu com a experiência aos avanços médicos contemporâneos”, diz ela, que deixa as grávidas escolherem a posição mais confortável para parir e faz massagens, seguindo a tradição, mas inclui no roteiro exames como o pré-natal e monitoramento de batimentos cardíacos do bebê durante o trabalho de parto.
Planeta das mulheres
Vilma tem a mesma conduta. E, se o parto mais recente que auxiliou, o da avenida Rebouças, tivesse qualquer complicação, o maior complexo hospitalar da América Latina (Hospital das Clínicas) estava a poucos quarteirões. Mas, como de costume, tudo correu bem. O pai da gestante cuidava da casa e preparava a comida, enquanto sua esposa segurava a mão da filha, que sorria minutos antes de parir.
Conheça a história de Vilma, Heloisa e Suely, que dedicam suas vidas a levar mulheres para “um planeta”, onde, como diz Heloísa, não há tempo nem espaço e tudo pode acontecer.
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