Heloisa Lessa, 47 anos
A carioca Heloísa já perdeu a conta das vezes em que foi chamada de maluca. “Se algo der errado, acabo com você”, bradou uma senhora ao saber que o neto nasceria em casa, assistido pela parteira. Não dá para saber se a promessa era real porque o parto, realizado em um apartamento de Ipanema, foi um sucesso. Dos 173 partos domiciliares que auxiliou nos últimos 19 anos, apenas nove acabaram na maternidade e cinco em cesariana. Mesmo assim, a parteira diz que não é “biscoito” exercer o ofício no Rio de Janeiro. A desconfiança não parte das mulheres que a procuram, mas sim da família. “Tem marido que quer colocar uma unidade da UTI na porta do prédio”, diz. Para Heloísa, a explicação para tanta cobrança é clara. “Esquecemos que parir é um ato fisiológico, como fazer cocô ou sexo”, diz, com a experiência de quem passou temporadas na Amazônia trocando informação com parteiras tradicionais. Anexou a vivência à sua formação de enfermeira, com mestrado, doutorado e congressos internacionais.
Suely Carvalho, 57 anos
Ela não tem dúvida de que o pânico que sente em lugares fechados é porque ficou meia hora presa no canal vaginal da mãe. Neta de uma parteira que ia a cavalo até as gestantes, a paranaense Suely descobriu a vocação estudando enfermagem. Há 25 anos, cansou de partos em hospital – “pra mim, a prioridade era a saúde da mãe e a do bebê e não o conforto dos médicos” – e se mudou para Recife, onde passou sete anos como aprendiz das parteiras tradicionais da zona rural. Até virar uma delas. Em 1991 fundou a C.A.I.S do Parto (ONG que apóia a humanização do parto) e se tornou um elo entre profissionais de comunidades isoladas e mulheres de classe média e alta do país – 70% de suas clientes. Cinco mil partos depois, em solidariedade às profissionais não remuneradas, Suely não cobra nem quando atende quem poderia pagar, como a antropóloga Danieli Soares, 26, que há um ano deu à luz seu filho, em casa. Sem intervenção alopática, seu parto durou seis horas e acabou numa sensação que ela compara à de um orgasmo.
Vilma Nishi, 54 anos
Desde 2002, Vilma não quer mais a rotina de cesarianas agendadas e partos normais com intervenção nos hospitais, onde trabalhou como enfermeira obstetra por 25 anos. Hoje, como parteira, atende diariamente mulheres de classe alta, como escritoras, advogadas e até médicas, em seu consultório em São Paulo – e já fez 150 partos domiciliares. “A mulher simples sabe que vai parir naturalmente e não tem questionamentos como as mais intelectualizadas, que sofrem influências externas e desacreditam que são capazes de dar à luz uma criança sem intervenções.” Desde 2000, Vilma presta atendimento às gestantes da favela Monte Azul, na zona sul paulistana. Para quem teme a dor do parto, ela costuma contar a história de Vera, uma moradora da Monte Azul, que, depois de a cólica ser diagnosticada como infecção urinária, voltou para casa e, de madrugada, quando relaxou, pariu sozinha o primeiro filho sem ao menos saber que estava grávida. “O bebê simplesmente nasceu”, conta Vilma, para constatar: “A dor do parto é forte, mas está ligada à cabeça”.
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