Conheça a história de outras parteiras: mulheres que ajudam a trazer crianças ao mundo no aconchego do lar. Seja no meio do mato ou no caos dametrópole   

Por Ariane Abdallah

 
   
O médico deu três meses de vida a Francisca de Oliveira, 53, quando viu que a doença havia atingido a medula. Tudo por causa do contato direto que ela teve com um produto químico quando trabalhava com revelação de fotos. “Resolvi dedicar meus últimos dias às outras pessoas”, diz ela, que convenceu o prefeito do município de Iranduba, no Amazonas, a comprar um terreno e fundar a comunidade da Serra Baixa. Quando chegou lá com o marido e os três filhos, essa mulher risonha de 1,48 metro de altura havia feito um único parto, de improviso, quatro anos atrás. Uma vizinha batera à sua porta tendo contrações e pedindo carona. A bordo da rural de seu marido, Francisca percebeu que não ia dar tempo de chegar ao hospital. Olhou para o lado e... perfeito: pulou para a parte de trás do carro com um óleo de lubrificar automóvel nas mãos. “Não tinha outra coisa pra massagear a barriga, mana”, justifica. Ela ainda aparou as unhas com os dentes antes de ajudar a gestante, que corria riscos dignos de uma cesariana: “O bebê veio de bunda”. Ou seja, as pernas saíram primeiro e a cabeça da criança poderia ter entalado. Mas Francisca não se deu a opção de falhar: “Pedi licença e fui metendo a mão. Tenho certeza que minha tia estava ali”, lembra se referindo à parteira que a criou desde a morte de sua mãe, quando ela tinha 10 anos. Francisca sempre quis acompanhar um parto com as mulheres mais velhas, mas “isso não era coisa para mocinha ver”, e só quando começou a namorar, aos 15, é que foi liberada. “Elas achavam que eu ficaria chocada e teria medo de engravidar, por isso me deixaram ver. Mas não me assustei. Achei lindo.” Hoje, 22 anos depois do diagnóstico do médico, Francisca é a única parteira entre os 380 habitantes de Iranduba, onde trabalha também como agente voluntária da polícia – já ajudou a prender seis assassinos. “Morar aqui agora é tranqüilo. E nunca mais tomei um remédio”, diz satisfeita.
 
   
Raimunda de Souza, 51 anos, tinha 17 e ainda morava em sua cidade natal, Santarém (Pará), quando saiu de casa para visitar uma tia doente e voltou parteira. Caminhando pelo corredor do hospital, ela abriu a porta do quarto para ver o que era. Encontrou uma mulher deitada com os pés para cima, mas só entendeu o que estava acontecendo quando a moça segurou a gola de sua blusa com força. “Você vai me ajudar a ter esse filho.” Presa pelas duas pernas da grávida ao redor de sua cintura, lhe restou obedecer. Raimunda nunca havia visto uma cena como aquela, embora desde criança ouvisse as mulheres da família falarem sobre medição de barrigas, centímetros de dilatação e de como acabar com dores usando chás e massagens. Imbuída de uma força que não imaginava ter, ela empurrou a barriga da desconhecida até ver o bebê sair todo enrolado no cordão umbilical. “Aquilo foi muito bonito”, conta. E virou madrinha da criança – o que é comum acontecer com parteiras. Desde então, passou a acompanhar o trabalho da avó índia, que a pegou quando ela nasceu. Com cinco filhos e um diploma de técnica de enfermagem, Raimunda se separou do marido, pediu demissão da fábrica de madeira em que trabalhava temendo ter a mão decepada pelas máquinas e foi vender vatapá na porta de casa. Há 18 anos o ex-marido morreu, e ela foi ajudar uma amiga de mudança para o Amapá. Até hoje está lá, morando numa casa de chão de cimento, com poucos móveis e muitos netos, vizinhos, afilhados. Dia desses, a filha mais velha, Silvania, que aos 34 anos é advogada e mora em Belém, assistiu o primeiro parto: o da babá de seus filhos. Enquanto isso, Raimunda, que há nove anos também é merendeira de uma escola, aguarda a ligação do hospital de Santana, onde se candidatou a parteira voluntária.
Arma virtual

Por Ana Paula Orlandi


A internet é uma grande arma das parteiras urbanas. Que o digam as paulistanas Marcia Koiffman e Priscilla Colacioppo, da Primaluz (www.primaluz.com.br), que assistem partos em casas de classe média. “Em geral acontece assim: a gestante quer ter parto normal, procura seu médico e logo que percebe um discurso pró-cesariana sai em busca de outras alternativas, principalmente na internet”, conta Priscilla. Assim, foi muito graças à rede que a dupla, junta há três anos, hoje assiste a cerca de três partos por mês. “Quando começamos a média era menos de um parto mensal”, lembra Marcia, que engavetou o diploma de advogada para se tornar parteira há 15 anos. E hoje, aos 40 anos e uma faculdade de enfermagem depois, não se arrepende da decisão apesar da rotina profissional incerta. “Eu não posso ter trabalho fixo, pois minha prioridade é o parto e preciso organizar minha vida para estar sempre disponível.”

 
As parteiras Priscila e Marcia  

A exemplo de Marcia, a bióloga Ana Cristina Duarte se prepara agora para fazer um movimento semelhante. No final do ano, ela vai se formar como parteira na primeira turma do curso de obstetrícia, da USP Leste. Ana Cris, como é conhecida, trabalhou como florista durante 15 anos até o nascimento do primeiro filho. “Fui induzida pelo médico a fazer uma cesárea”, afirma. Quando engravidou pela segunda vez, trocou de médico e conquistou um parto normal. “Percebi que precisava fazer alguma coisa para que as mulheres pudessem ter o direito de optar pela forma que queriam ter seus filhos”. Com duas amigas criou o site Amigas do Parto, que recebe cerca de mil acessos diários apesar de não ser atualizado desde 2003. Hoje, ela está à frente do Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), cuja meta é “promover uma atitude positiva, ativa e consciente em relação à maternidade”, como diz o site, através de oficinas, listas de discussão e palestras.

Enquanto o diploma de parteira não sai, Ana Cris também trabalha como doula (profissional que oferece suporte físico e emocional à parturiente) e tem como colegas no curso da USP Leste outras mulheres de classe média que como ela migraram de outras profissões por conta da paixão pelo ofício de receber bebês no mundo. É o caso da ex-gerente de banco Carla Azenha, que apesar do entusiasmo reconhece que tem uma trilha árdua pela frente. “Vivemos em um boom de cesariana, e ser parteira hoje é ser guerrilheira”, avisa.

 
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