Papo de mulher

Por
Bia Fioretti*

A primeira vez que ouvi falar em uma parteira urbana, eu tinha 15 anos. Li numa revista sobre uma médica que fazia parto em casa. Me encantei com sua proposta e guardei a tal matéria por mais de dez anos. Quando engravidei, procurei a parteira, mas não a encontrei, então me indicaram um médico muito tradicional favorável ao parto normal. Eu tinha pavor de cirurgias e cesarianas. Mas no fim das contas, nos dois partos que tive, sofri todas as interferências médicas que existem, sem saber que poderia questioná-las e escolher.
Foram partos, apesar de vaginais, muito traumáticos e no hospital – isso porque eram médicos muito atenciosos, profissionais capazes, mas que atuavam como descreve a medicina contemporânea. Ou seja, incluindo lavagem intestinal, raspagem do pêlo pubiano e soro com oxitocina (que acelera as contrações e provoca dores fortíssimas). A mesa de parto foi a parte mais traumática, pois eu queria tirar a perna de lá para que os pés ajudassem a fazer força, e amarraram-na para o alto. A anestesia foi muito forte. Os médicos fizeram a episiotomia (aquele corte, que hoje sei, é desnecessário na maioria dos casos) e usaram fórceps para pegar o bebê. Para piorar tudo me separaram do bebê assim que nasceu, como é costume.
Isso sem contar as interferências no bebê. O que acontece quando você separa um cachorrinho da mãe assim que nasce? A cadela depois o rejeita. Isso, para nós, corresponde à depressão pós-parto. Em hospitais públicos, as intervenções que antigamente eram ocasionais viraram rotina.
Pela Organização Mundial de Saúde, mais de 4 milhões de bebês morrem no mundo antes do primeiro ano de vida. Se todos os recém-nascidos forem amamentados na primeira hora de vida, 1 milhão de crianças poderão ser salvas. Além disso, esse contato aumenta o vínculo entre mãe e bebê. Eu só pude ver meus filhos depois de seis horas.
No hospital, o médico está acima da gestante, ele é a autoridade. Já no parto com a parteira, ela está ali apenas para dar assistência, e está abaixo da mulher. A gestante fica com as pernas para baixo, ou seja, conta com a força da gravidade a seu favor e ainda estará conectada com a terra. Uma parteira, seja ela urbana ou tradicional, é muito paciente, experiente e carinhosa com a mãe. Ela fará do parto um ritual de passagem e não apenas um procedimento físico (como no hospital, por exemplo). Este será um processo de corpo e espírito com três pessoas envolvidas (a parteira, a mãe e o bebê).

Como era no princípio
Há quatro anos comecei a pesquisar o feminino e desde então desenvolvo o projeto Mães da Pátria, Movimento de Resgate do Feminino através das Parteiras Tradicionais, o que se tornou uma cura para meu trauma de parto. Encontrei em mulheres do mundo todo, do Canadá à Terra do Fogo, um suporte e uma força que não pensei que existissem. Hoje o movimento Mães da Pátria possui mais de 700 mulheres que foram cadastradas e fotografadas. E, apesar de terem métodos de trabalho e morarem em regiões diferentes, são mulheres com valores, costumes e tradição, que trabalham com o mesmo objetivo: a qualidade do nascimento.

 
Bia mostra imagens de duas das parteiras fotografadas por ela, através do projeto Mães da Pátria  

Por causa desse trabalho, faço palestras e escrevo um livro com os depoimentos da vida dessas mulheres e me considero a ponte entre o tradicional e o contemporâneo. Pois quero mostrar às mulheres urbanas que temos escolha. Apesar de não ter dado aos meus filhos um parto tranqüilo com uma parteira, me considero uma heroína de minha própria história, como todas as mulheres que dão aos seus filhos um parto vaginal e não uma cesariana desnecessária.
Quero salientar que as interferências médicas são muito importantes e relevantes, mas apenas quando necessárias. Eu conheço pessoalmente as parteiras que estão na revista e no site da Tpm. E gostaria que aplaudíssemos Suely, Heloísa, Francisca, Vilma, Priscila, Marcia e todas as 60 mil parteiras do Brasil, que, com sabedoria e coragem, fazem de seu trabalho um pequeno exército que luta por mais qualidade e respeito ao nascimento. E estão fazendo essas mães e crianças seres humanos mais iluminados e confiantes.




* Bia Fioretti é publicitária, vive em São Paulo e teve seus dois filhos de parto normal em hospital, com todas as interferências de praxe. Há quatro anos, desenvolve o projeto
Mães da Pátria, Movimento de Resgate do Feminino através das Parteiras Tradicionais: www.maesdapatria.com.br

 
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