Casa de Maria

Partos sem anestesia, sem indutores, sem cortes e... sem gritos? Só mesmo vendo pessoalmente para acreditar

Por Paula Rothman

Uma casa térrea, cercada por jardins e pintada com cores clarinhas. Dentro, um silêncio gostoso que, nem de longe, lembra aquela imagem de parto descabelado, suado e dolorido. Locais como a Casa de Maria, anexa ao Hospital Santa Marcelina, no Itaim Paulista, extremo leste de São Paulo, são ambientes tranqüilos, higienizados, equipados para qualquer emergência e, acima de tudo, preocupados com a segurança das mães e dos bebês.
Aqui, todas as enfermeiras são obstetrizes treinadas e o hospital fica a menos de dois minutos”, conta Silmara de Fátima Teixeira, supervisora da Saúde da Mulher e da Criança do Santa Marcelina. Para ela, a preocupação com a segurança e o medo da dor são os dois grandes mitos que afastam as mulheres das casas de parto que, como a Casa de Maria, atendem pelo SUS (Sistema Único de Saúde). “Nós auxiliamos somente nascimentos de baixo risco, ou seja, aqueles em que a mãe e o bebê estão em boas condições de saúde”, explica Silmara. “Mães com problemas cardíacos, de pressão, bebês acéfalos ou com qualquer quadro de complicação, não estão dentro das condições consideradas seguras para as casas de parto”.
Em oito anos de funcionamento, e com média de 40 partos por mês, a Casa de Maria nunca registrou um óbito sequer. O mesmo acontece com a Casa de Sapopemba, uma das mais tradicionais da cidade: com 407 partos realizados em média por ano, nunca houve uma morte. Os números favoráveis não vêm do nada, pois a preparação das gestantes é um dos pontos fortes das casas de parto, seja na obrigação de apresentar exames em ordem, seja no trabalho físico e psicológico realizado com as mulheres e seus familiares. “Aqui, o grande diferencial é que tratamos o parto de uma forma mais natural, mais humanizada, com participação ativa da gestante”, explica a médica Fabiana Sanches, coordenadora de Saúde da Mulher do Santa Marcelina.

Sem medo do desconhecido
A partir da 37ª semana, a paciente já pode abrir um plano de parto e fazer o acompanhamento direto na casa. Em uma série de visitas, a equipe explica as diversas etapas pelas quais a futura mamãe vai passar, mostra quadros com ilustrações da saída do bebê pelo canal e ensina exercícios de respiração e fortalecimento da pélvis, que garantem que o canal volte a seu diâmetro normal após o parto. “O medo de alargamento não tem quase nada a ver com a episiotomia – aquele corte feito para ajudar na passagem –, mas sim com o quão elástico é o músculo de cada uma”, explica a coordenadora. “Exercícios garantem também uma recuperação rápida e a volta à vida sexual normal”, garante Silmara. Já a bexiga caída – ou incontinência urinária –, outro temor das mulheres, está mais relacionada à gravidez em si do que ao modo como o parto foi feito. “Trabalhamos o físico e o emocional das mães, tanto o corpo como o medo do desconhecido. A mulher tem que saber que vai sentir dor. Sabendo disso, tudo acontece de uma maneira mais tranqüila”, garante Fabiana.
Com 7 centímetros de dilatação, em pleno trabalho de parto, Fany Hiromi, grávida do primeiro filho, lia calmamente uma revista no dia em que a Tpm visitou a casa. Sentada em uma grande bola de ginástica e com os cotovelos apoiados na cama, ela não lembrava em nada a imagem normalmente veiculada pela mídia, em filmes e novelas, de uma mulher prestes a dar à luz. A jovem de 25 anos contou que um dos motivos de ter escolhido a Casa de Maria é o fato de só haver partos normais no local. “Fiz o plano de parto e achei a casa um lugar muito bom, calmo.” A menos de três horas de ter a pequena Mariana, ela garante: “Claro que tem dor, mas é normal. Nada de outro mundo”.
Em vez de medicamentos, uma das técnicas mais utilizadas para controlar a dor e estimular a dilatação é o banho quente de banheira. Outro diferencial das casas é adotar o processo ativo durante o parto. As futuras mamães são encorajadas a andar, mudar de posição, tomar banho... Enfim, tudo o que melhore seu conforto. Durante o parto é a mesma coisa: a mulher escolhe a posição na qual se sente mais confortável (sentada na cama, de cócoras, de pé, abraçada ao marido, deitada de lado...). Há, inclusive, um quadro que mostra muitas posições possíveis. “Isso não só melhora o parto em si, mas todo o processo de recuperação”, conta Fabiana.
Depois do nascimento, a mãe e o bebê ficam juntos, em uma sala de recuperação coletiva. Talvez por isso não se escutem choros pelo corredor. Na casa de Maria há duas salas, uma com dois e outra com cinco leitos e, assim como nos hospitais, a mãe tem direito a um acompanhante de sua escolha. Por determinação do governo, o período de internação mínimo é de 48 horas nas casas de parto e em hospitais, para que todos os exames possam ser realizados no recém-nascido. “Algumas mulheres só não vão para casa no mesmo dia por causa dessa lei”, garante Silmara.

 
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