Campanha do governo federal quer tirar Brasil do pódio mundial de número de cesáreas
Por Paula Rothman
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em média 43% dos partos realizados no Brasil são cesáreas. Os números aumentam entre as mulheres que utilizam planos de saúde: 80% optam pela cesariana, contra 26% das usuárias da rede pública. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, definiu o problema como uma “epidemia” de cesarianas, uma vez que os números do país passam longe dos 15% máximos recomendados pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Para tentar conter esses números, o governo lançou, no dia 11 de maio, uma campanha de incentivo ao parto normal.
“As cesáreas são procedimentos cirúrgicos que devem ser realizados quando necessário e não indiscriminadamente”, explica a médica Fabiana Sanches, coordenadora da Saúde da Mulher do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo. Dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 70% das mulheres dizem querer parto normal no início da gravidez, entretanto, no fim da gestação, os números caem consideravelmente. Os motivos alegados são muitos: preocupação com a segurança do bebê, praticidade para agendar a data – tanto para a mãe quanto para o médico – e os medos de dor, hemorragia e infecções. “Há muitos mitos envolvendo a cesárea. No Brasil, as pessoas ainda acreditam que é mais seguro, e até mesmo mais chique, fazer cesárea”, acredita Fabiana.
Mas qual é o problema com a cesárea?
Os avanços tecnológicos que permitem a realização de cirurgias cada vez mais precisas dão a falsa sensação de que a cesárea é um procedimento absolutamente sem riscos. A comodidade de poder escolher o dia do parto (ou até mesmo o signo da criança!), o medo da dor e os muitos mitos que assombram as gestantes (bexiga caída, alargamento do canal, hemorragias) levam as mulheres a descartarem a forma mais natural de dar à luz.
O que elas ignoram é que o parto cirúrgico tem maior risco de hemorragias e infecções nas mães, além de aumentar o risco de problemas em futuras gestações, como a ruptura do útero e o mau posicionamento da placenta. Uma pesquisa divulgada pela Global Survey, um braço da OMS, constatou um número três vezes maior de hemorragias em mulheres que optaram pela cesárea do que aquelas que tiveram partos normais. Ainda mais alarmantes são os números que relatam as internações em UTIs: 20 vezes mais freqüentes naquelas que optam pelo parto cirúrgico.
Para os bebês, a situação não é melhor. O parto antecipado – que ocorre na maioria das cesarianas – aumenta em até 120 vezes os casos de problemas respiratórios e, conseqüentemente, de internações na UTI neonatal. Ainda segundo o Ministério da Saúde, as infecções causadas pelo parto, a terceira maior causa de morte de recém-nascidos, são mais freqüentes em cesáreas.
“A cesárea não só aumenta o risco de hemorragias, como também o desconforto respiratório do bebê, já que não garante que ele esteja no tempo certo”, explica Fabiana.
Depois do nascimento, a mãe e o bebê ficam juntos, em uma sala de recuperação coletiva. Talvez por isso não se escutem choros pelo corredor. Na casa de Maria há duas salas, uma com dois e outra com cinco leitos e, assim como nos hospitais, a mãe tem direito a um acompanhante de sua escolha. Por determinação do governo, o período de internação mínimo é de 48 horas nas casas de parto e em hospitais, para que todos os exames possam ser realizados no recém-nascido. “Algumas mulheres só não vão para casa no mesmo dia por causa dessa lei”, garante Silmara. |