Casas Coca-Cola e pessoas gentis
Mais seis horas de vôo (com uma hora de escala na capital da Etiópia, Adis Abeba) e chegamos ao aeroporto internacional de Entebbe. Foi nesse momento que a viagem começou “oficialmente”. Logo após descer do avião o primeiro momento de apreensão: será que o fiscal da imigração vai seqüestrar meu passaporte para que eu pague uma “segunda taxa de visto”? Esse não é o tipo de coisa com a qual me preocupo normalmente, mas antes de partir escutei tantas histórias sobre mutretas africanas que cheguei com o pé-atrás, esperando, se não o pior, algo ruim.
A resposta ao meu infeliz pensamento foi, felizmente, um belo não. O fiscal deu-me as boas-vindas e convidou-me a entrar em seu país. Foi um gostinho do que vinha por aí: pessoas extremamente gentis e um país maravilhoso.
Álvaro, pai do meu namorado, que na época morava em Kampala – capital e maior cidade do país, localizada há poucos quilômetros do terceiro maior lago do mundo, o Victoria – nos aguardava no aeroporto.
Durante o trajeto de 50 minutos até a cidade, eu só conseguia pensar em uma coisa: estou finalmente respirando o ar de Uganda. Sim, eu estou na África!
No carro, o primeiro vislumbre da cultura local: casas Coca-Cola, casas Pepsi, casas Celtel... o que não faltavam eram pequenas lojas fazendo vezes de outdoors. É comum no país o aluguel de fachadas por grandes marcas. O mix de pobreza e capitalismo é o traço determinante da personalidade da região.
Mais do que mera propaganda, as tais casas marcas foram o primeiro indício que me ajudou a perceber, tempos depois, que Uganda é um país de pessoas que se preocupam com estética no sentido mais positivo da palavra. A riqueza dos trajes típicos e suas cores vibrantes, a formalidade na vestimenta e o artesanato local são exemplos disso.
Veio como uma surpresa, devido à minha ignorância sobre a cultura local, que tanto em áreas urbanas como no interior as pessoas se vestem bem. Mulheres usam saias longas, salto alto e, apesar do calor constante, poucas vestem regatas. Normalmente blusas de manga curta são a pedida. E os homens acompanham. Calça social com cinto, camisa social de manga curta e sapato fechado. Imagino que a formalidade seja uma provável herança da época em que Uganda foi um protetorado inglês, de 1894 a 1962.
As mulheres são, sem exagero, as mais bonitas que já vi. Altas, esguias, portadoras de traços fortes e marcantes e de uma elegância ímpar. O traje típico é um vestido com ombro armado – a primeira vez que vi tive certeza de onde veio a inspiração para as ombreiras e os ombros angulares dos anos 80. As peças intercalam tecidos opacos e acetinados, cores primárias saturadas e armações aramadas.
Mas, antes de contar como meus dias ugandenses transcorreram, vou compartilhar alguns fatos importantes sobre o país. A nação, conhecida hoje como Uganda, foi formada a partir de cinco reinos que ainda hoje mantém certa autonomia cultural: Toro, Ankole, Busoga, Bunyoro e Buganda – região onde hoje fica a capital Kampala e pela qual mais viajei. As línguas oficiais são swahili e inglês, mas pelo menos 40 línguas são faladas, incluindo a luganda, língua nativa de Mikey, motorista que nos acompanhou durante toda a viagem. |