Zona segura
Antes mesmo de chegar eu já sentia o cheiro de frutas, peixes, carnes, verduras e, pasmem, grilos fritos. Todo o caos de Kampala pode ser resumido no principal mercado da cidade: Nakasero Market.
Vendedores gritam de um lado e carros quase atropelam pedestres de outro, mas em nenhum momento me senti insegura. Kampala é considerada uma das capitais africanas mais seguras, já que assaltos são raros.
Uma das coisas que mais me impressionaram no país foi o fato de não haver moradores de rua. Durante as quase três semanas que passei lá, vi apenas um mendigo. Como pode não haver mendigos em um país onde o PIB per capita é de US$ 900/ano? Não pesquisei a respeito, mas penso que a forte herança cultural guerreira das tribos deve fazer diferença na vida de todos os africanos.
Saímos do hotel as quatro e meia da manhã em direção ao parque nacional Lake Mburo. No caminho, uma surpresa: o nascer de sol mais colorido que já presenciei. Rosa choque, laranja, amarelo, furta-cor... E, conforme o sol se tornava mais forte, eu só conseguia pensar que lembraria daquele momento pela vida toda... E estava certa.
Na chegada, fomos recebidos pelas zebras. Dezenas delas mesmo antes da entrada oficial do parque. E depois as impalas. Centenas delas atravessavam na frente do carro, como se não estivéssemos lá.
Lake Mburo é um dos poucos parques em Uganda onde é possível fazer um safári a pé, já que lá não vivem predadores. A caminhada de quatro horas terminou com o encontro com um dos animais mais perigosos da África. A cerca de 30 metros de uma manada de uns cem búfalos a adrenalina corre solta. Mesmo com uma explicação de que o animal só ataca quando está sozinho, meu coração batia acelerado.
Comunicação visual
Aproveitando a adrenalina do safári, no dia seguinte resolvemos nos aventurar em um rafting. O trecho do rio Nilo que passa pela cidade de Jinja é considerado um dos melhores locais no mundo para a prática do esporte. Eu já havia praticado a atividade algumas vezes, mas nenhuma delas se compara às 12 quedas-d'água – quatro delas classificadas como nível cinco (quedas extremamente difíceis e violentas; redemoinhos instáveis e correntes irreguláveis, que podem medir até 4 metros verticalmente) – que estavam à minha espera. Sem dúvida um dos highlights da viagem.
Usamos a noite para descansar, pois o dia seguinte começou cedo. Às 4h45 acordei para me preparar para as seis horas da pior estrada pela qual já viajei. O caminho para o parque nacional de Murchison Falls rendeu, além de um segundo nascer do sol deslumbrante, outra surpresa que para sempre ficará na minha memória.
Fizemos um de-tour e paramos em uma aldeia bem off the track. Após sair do carro e caminhar por alguns metros, deparei com um grupo de crianças. Com idades entre 8 meses e 10 anos, olhavam-me curiosas, evidenciando o quão rara a passagem de uma pessoa branca por lá deve ser. A troca imediata de carinho foi mútua. Aos poucos as crianças foram se aproximando e mostraram-se interessadas pela minha câmera. Com olhos marejados, comecei a mostrar as fotos que havia tirado até então. Dois minutos depois, sem nenhuma palavra trocada, tive que ir embora. Ficou a melhor lembrança da viagem. |