Na boca da leoa
Girafas, impalas, zebras, búfalos, elefantes, jacarés, uma leoa, centenas de pássaros e a cachoeira mais poderosa do mundo marcaram a viagem até o parque nacional de Murchison Falls.
Sem tempo para nos planejar, não conseguimos acomodação dentro do parque, então ficamos em um hotel na cidade mais próxima, Masindi, a 20 minutos da entrada do parque e a duas horas da balsa que dá acesso à região do safári. Cruzamos a primeira balsa às 7h, e em seguida teve início a árdua procura pelos leões. Sabíamos que o melhor horário para vê-los era bem cedo, período do dia em que as leoas caçam.
Durante as duas horas seguintes algumas girafas e impalas nos distraíam enquanto a grande atração não dava as caras. Às 9h22 avistamos a leoa – responsável por prover o alimento para seu parceiro e filhotes – que menos de um minuto depois nos proporcionaria uma experiência única.
A felina se preparava para o bote enquanto um grupo numeroso de impalas, completamente desavisados do que estava por vir, comia tranqüilamente a uns 500 metros dali.
Questão de segundos depois de a leoa começar a correr que as impalas se deram conta do perigo e começaram a fugir. Nesse momento, uma adrenalina que poucas vezes senti tomou conta de mim. Um dos filhotes de impala foi ficando para trás e acabou tropeçando. Sem hesitar, a leoa abocanhou-o. A caça chegara ao fim.
A situação toda pôs-me a pensar sobre a fragilidade da vida e o papel de cada animal na natureza. Enquanto procurávamos pelos leões, pensei muito sobre qual seria minha reação se de fato presenciasse uma caça. Sou semivegetariana (como peixe, mas não carne vermelha, de porco ou ave) já há alguns anos e tive receio de quais sentimentos viriam à tona. Achei que pudesse ficar devastada. Mas não foi o que aconteceu. Naquele dia o filhote de impala perdeu sua vida para salvar a de uma família inteira, o que me pareceu natural. Se ele não tivesse morrido, outros quatro animais teriam. E quem sou eu para decidir qual deles merece viver ou não?
Água benta
À tarde pegamos o barco que nos levaria até a cachoeira mais poderosa do mundo: Murchison Falls. No trajeto, hipopótamos e elefantes se banhavam ao lado do barco enquanto pássaros de diversas espécies o sobrevoavam.
O Nilo se afunila em um vão de 7 metros e cai violentamente 43 metros. Trezentos metros cúbicos de água por segundo são espremidas para formar a cachoeira. Depois de uma hora de trilha para alcançar o topo da Murchison Falls, o salpico de água refrescava o corpo e disfarçava o suor decorrente da caminhada, enquanto a vista fazia valer todo o esforço.
Na volta para o hotel observava da janela do carro, por entre as árvores, o sol se pôr. A viagem havia terminado. Dois dias depois pousávamos em Cumbica.
Foi só durante o vôo de volta para São Paulo que compreendi o significado de tudo aquilo. O primeiro grande sonho de vida realizado ninguém esquece. |