Postado em 25.02.2010 | 15:02 | por Marjorie Fonseca

Já faz tempo que ando ouvindo pelo bairro garotos dizendo que sonham ser jogadores de futebol, advogados etc. Mas para eles realizarem esse sonho está tão distante... Muitas vezes esses garotos são empurrados para a vida do crime justamente pela falta de oportunidade. Na maioria das vezes eles mesmos não querem sair, acreditam que seria muito difícil conseguir algo melhor do que atualmente estão conseguindo com essa vida "errada" .
Esses meninos estão na faixa dos 13 aos 17 anos e o que poderiam fazer para construir uma vida melhor não fazem como: frequentar corretamente as aulas e procurar um trabalho com alguém para aprender a exercer uma profissão. São jovens que perderam as esperanças e não se sentem capazes de alcançar um futuro melhor.
Lá no Capão convivo muito com essa realidade e vejo esses garotos com pinta de gente grande, mas eles ainda não são! Passam abraçando uma garota, voltam abraçando outra, andam com motos como se fossem deles e fingem que são maiores para poder andar... Mas apesar de tudo isso ainda é possível ver nos olhos desses meninos o espírito juvenil e esperançoso.
Esse foi mais um desabafo – sei que pelo Capão muita coisa está mudando e crescendo cada vez mais o número de pessoas que querem ajudar!
Postado em 02.02.2010 | 11:02 | por Marjorie Fonseca


Para muitos a virada do ano é festejada com a esperança de que coisas diferentes possam acontecer, além da rotina que se repetirá no novo ano que chega. Mas imagine como será 2010 para quem passou oito anos em um mesmo lugar, com as mesmas pessoas, sem festejar, sem estar com a família ou amigos, preso entre celas! Xandi, 26 anos, nasceu em São Paulo, morava numa casa de três cômodos com dois irmãos, não conseguiu ser jogador de futebol como sonhava na infância e chegou a passar fome. Filho caçula, perdeu a mãe ainda criança e passou a viver contando com ajuda de vizinhos. Diante das tentações existentes em uma favela, Xandi apostou numa ilusão de vida melhor: "os caras da boca" o convidaram para entrar no grupo e, além de tráfico e uso de drogas, eles faziam assaltos. Quando viu, Xandi estava enjaulado, preso por porte de arma ilegal, entre outros artigos, condenado a oito anos de prisão. Mas ele garante que, apesar de ter passado por momentos ruins lá dentro – como inúmeras brigas entre os presos -, conquistou amigos verdadeiros, que pensam como ele e querem uma vida diferente. "Lá dentro o que temos são os amigos que fazemos".Este ano, após cumprir os oito de pena, pôde finalmente pisar em solo livre. A maioria das pessoas a sua volta achava que ele voltaria a roubar, a traficar... Mas ele diz: "Mesmo que eu passei por essa fase, por erro meu, quero mostrar tanto para meus filhos como para meus amigos e família que voltei diferente". Em um novo ano sempre esperamos coisas boas, mas para ele é muito mais que isso!"Espero que Deus me ilumine, que eu consiga montar minha casa, criar meus filhos, que meus amigos continuem torcendo por mim." Confiante, Xandi já começa a construir sua nova história: "Este ano, como os outros que vão vir, vou ser feliz de verdade, estou nascendo de novo!".
Postado em 06.01.2010 | 13:01 | por Marjorie Fonseca

Meses de festa e diversão são para todos, a favela não para. O Natal e Ano-novo é sempre uma alegria para os moradores, apesar de a maioria não viajar, os dias de festejar sempre são recheados de comidas, e as casas sempre são animadas. O final de semana após o Ano-novo me fez refletir sobre vários momentos da minha vida, e a dar mais valor às pequenas coisas. Durante meus últimos dez anos sempre passei a virada do ano na praia, pulando as famosas ondinhas, olhando para o céu e fazendo meus pedidos, pois bem, a virada deste ano passei em São Paulo mesmo, com a família do meu namorado, na zona norte, pensava que seria triste e sem vida, mas me surpreendi quando percebi a casa toda animada, minhas expectativas voltaram e percebi que onde quer que eu passasse meu Ano-novo, ele seria feliz, pois acreditei que este ano será muito bom para mim, e que nada me impedirá de alcançar meu objetivos.
Como todo final de ano, sempre esperamos que o que está chegando será melhor, ou igual, e que apenas coisas boas aconteçam. Lá na favela as pessoas não esperam que, com a virada do ano, as coisas mudem, como mágica, mas sim, que irão fazer de tudo para que suas vidas melhorem, acreditando sempre que Deus as ajudarão. E ajudará.
Postado em 21.12.2009 | 22:12 | por Marjorie Fonseca


A vida na favela
Uma família joga um colchão velho no córrego. Logo ali, perto da lixeira, há cachorros procurando comida. São muitos, farejam, espalham o lixo por toda a parte. Um som alto tocando forró – que vem de um barraco sustentado por madeira, que fica em cima do córrego – faz as crianças dançarem pela rua, descalças. Este é o cenário do vizinho do Capão Redondo: o Jardim Aracati. Conhecido como um bairro mal cuidado, perigoso e escondido, é dele que vem o garoto que apresento hoje: o Binho. Criado pela mãe, empregada domésitca, Binho nunca teve muitas oportunidades na vida. Assume que regalias não existiram em sua trajetória e que até já faltou comida em sua casa. “Não tenho sonhos, nunca pude ter, não sei o que é sonhar”. Era o que dizia esse garoto de 20 anos, nove meses atrás. Sua história, até então, era como a da maioria dos meninos moradores de favela: vivia, há pouco tempo, em um barraco de apenas um cômodo, com sua mulher de 17 anos. Por não ter um lugarzinho seu, os “caras da boca” emprestaram a casa em troca de serviços prestados. Mas chegou uma hora que ele não quis mais aquilo. O problema era que, pra deixar essa vida, teria que se mudar. Até que, por meio de um amigo comum, ele conheceu o educador social, escritor – e meu namorado –, Marcos Lopes, e voltou a acreditar que a vida vale a pena. Marcos se comoveu com sua história e reuniu parceiros para ajudar a construir uma casa para Binho no próprio Jardim Aracati. Com a ajuda da Casa do Zezinho e do Cieja (Centro integrado de educação de jovens e adultos), o sonho do garoto que antes não tinha sonhos foi realizado. Binho apenas fez um pedido: “Minha mulher quer uma cozinha rosa!”.
Postado em 08.12.2009 | 18:12 | por Marjorie Fonseca


O Capão virou uma ilha...
Acordo com o despertador gritando ao lado da minha cama. Resolvo dormir mais um pouco. Tem dias que não acordo muito bem, sei lá, parece que eu já adivinho que o dia será chuvoso e feio! Sinceramente, quando chove, São Paulo vira um caos – o Capão Redondo então...Na quinta-feira passada era para ser o dia oficial de todos ficarem em casa dormindo!Mesmo saindo de casa cedo,demorei cerca de duas horas até a Trip. A chuva não parava. Na hora de ir embora tive que ter coragem para atravessar os lagos (poças de água) em toda a extensão da rua até o ponto de ônibus. Meu guarda-chuva quebrou no meio do caminho e tive que sair correndo, chegando no ponto toda molhada! Fiquei feliz em entrar rápido no ônibus e conseguir me secar, torcendo minhas meias (no meio do ônibus) e secando meu cabelo com as mãos. Naquele dia eu não teria de ir à faculdade, então peguei o ônibus direto para minha casa, no Capão. Durante todo o dia a chuva não parou. Muitas pessoas saíam do ônibus para ir andando, porque, devido ao trânsito, chegariam mais rápido aonde fossem. Muitos carros parados, ônibus chegando de toda a parte, e a chuva não parava. Nessas horas dá vontade de poder voar. Depois de quatro horas dentro de um ônibus (tempo que daria pra ir e voltar tranquilamente do Guarujá...), finalmente cheguei em casa. Mas é de praxe: conseguir chegar ao meu bairro em dias de chuva sem pegar trânsito e sem demorar mais de duas horas, só se for de helicóptero. No final do dia apenas o que eu queria era dormir, acreditando que o outro dia São Pedro daria um tempo na chuva.
Postado em 03.12.2009 | 17:12 | por Marjorie Fonseca


Bar no Capão, um dos poucos lugares que dá para se divertir sem atravessar a ponte
Se eu pudesse, ficaria mais no Capão nos momentos de lazer. Mas normalmente, se estamos a fim de sair de balada, escutar um som ou pegar um cinema, precisamos nos locomover pra lá da ponte. Na verdade, muitos jovens deixam de se divertir pela falta de opções, por não quererem se locomover para longe. Por isso sempre acabam fazendo festinhas em seus bairros. Pra dar uma ideia, aqui no Capão só existem dois cinemas: o do shopping Campo Limpo e o telão no terraço do Cooperifa (barzinho com músicas e poesia ao vivo), no Campo Limpo, que é um bairro vizinho. Talvez um dia existam outras alternativas, mas por enquanto o pessoal vai tentando se divertir da forma que pode. Eu procuro sempre conhecer lugares novos, então intercalo meus finais de semana. Alguns eu me divirto pela minha quebrada mesmo, com meu namorado, ouvindo um pagode. Em outros atravesso a ponte para sair com minhas amigas e primas. Mas em qualquer lugar estou feliz, desde que esteja com as pessoas que gosto.
Postado em 03.12.2009 | 16:12 | por Marjorie Fonseca


É aqui que costumo passar meus domingos, enquanto meu namorado joga bola
Aos domingos costumo ir com meu namorado ao campo de futebol do Parque Santo Antônio, chamado Campo do Astro. O time dele é o “Cabeças”. Quando chego, corro para um cantinho perto das grades para conseguir ver. E lá fico até o final do primeiro tempo. Porque, como meu namorado é goleiro, no segundo tempo mudo para o outro canto. Quando chove, a coisa complica, mas eles nunca param de jogar. E eu fico dentro do carro tentando acompanhar os lances pela janela. Dou muita risada dos cachorros que toda hora atravessam o campo ou ficam correndo de um lado para o outro – e muitas vezes são até confundidos com a bola. Como aos domingo muitos moradores de lá não trabalham, o lugar sempre fica lotado de gente que assiste às peladas. Mesmo sem nenhuma estrutura, aquele é o único espaço de lazer onde a molecada e os coroas se divertem, revezando cerca de dez times no dia.
Depois é hora de relembrar dos velhos tempos, em que os agora homens eram moleques, jogavam bola nesse mesmo campo, empinavam pipa juntos, ganhavam dinheiro quando pegavam bolas que caíam no córrego durante os jogos dos marmanjos. Tudo isso entre uma cervejinha e outra ou um churrasco na casa de alguém.

K.B.Ç.A.
Postado em 03.12.2009 | 12:12 | por Marjorie Fonseca


Minha casa, que nunca mudou de número
Todos os dias ao acordar, tomo banho, como alguma coisa e venho trabalhar na Trip. Pego dois ônibus para ir e dois para voltar. Levo uma hora e meia para atravessar a ponte que divide meu bairro pobre dos ricos. No caminho percebo que a diferença social é gritante entre um bairro classe média, como Pinheiros, cheio de árvores, e a “minha” região, com casas pichadas e outras que ainda não estão acabadas, a sujeira nas ruas e principalmente a falta de plantas e flores que poderiam ter lá. Minha vida inteira moro no mesmo lugar e, apesar de a numeração de algumas casas não seguir uma ordem, nunca foi mudado o número da minha “8”. Rola um constante entra-e-sai de vizinhos insatisfeitos com a região, mudando-se para um “lugar melhor”. Nunca fui roubada nem sofri qualquer lesão causada por moradores do bairro. Mas há três meses roubaram meu celular novinho, quando eu estava subindo no ônibus, em Moema, região nobre de São Paulo. Que ironia, não?
Postado em 02.12.2009 | 17:12 | por Marjorie Fonseca


Antes de conhecer a comunidade do Parque Santo Antônio, eu tinha medo de entrar em uma
Para quem não conhece a vida na periferia, estou aqui para dizer que existem muitas histórias que você não pode imaginar do outro lado da ponte. Com este blog espero passar um pouco dessa realidade – dura e crua, como é de fato –, mas também um mundo paralelo cheio de graça. Embora more no Capão Redondo, periferia da cidade de São Paulo, nunca vivi em favelas. E, antes de conhecer, tinha medo de entrar em uma e ser atingida por uma bala, de ser assaltada ou ver alguma cena que me chocaria. Mas há um ano e meio passei a frequentar a favela do Parque Santo Antônio, que fica pertinho de casa, dá até para ir andando. Meu namorado, Marcos, morou lá durante boa parte da vida e gosta de reencontrar os amigos, que agora são nossos. Me surpreendi ao descobrir um universo, sim, diferente do que eu vivia, mas com pessoas alegres, criativas e principalmente solidárias. Desde então quase todos os finais de semana vou acompanhar meu namorado no futebol e em festas.
Muitas vezes as únicas ideias que temos sobre a vida dos moradores de favelas são as divulgadas pela imprensa. Mas como estamos de fora não dá para ter uma real ideia do que acontece. Se você ficou curiosa para saber o que acontece na periferia da vida real e em uma favela da capital paulista, sem preconceitos ou estigmas, é só chegar.